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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Desconstrução e compreensão

O pintor e a modelo - Pablo Picasso
Ser humanista quer dizer, dentre tantas outras coisas, ter empatia pela dor e pela luta do outro, daquele que é oprimido e há muito tempo tem sido sumariamente ignorado, manipulado, corrompido, ferido, calado e desculturalizado. Isso é um ótimo ponto de partida para que se apoio e, sendo bem vindo, participe ativamente das lutas. Mas há uma parte do processo que consiste, de certa forma, em descaracterizar tudo aquilo que, histórico e socialmente, fizeram à nós desde antes mesmo de nascermos.
Quando nascemos fazendo parte de grupos que são historicamente opressores é comum nos verem como alguém que poderá, em algum dado momento e pelas mais variadas razões, agirmos de e em situações que identifique claramente o histórico opressor de ‘nós para eles’. E de forma alguma estas pessoas podem ser responsabilizadas por isso. Se temos que sempre se disse que as mulheres devem ter um determinado comportamento que faça com que elas devam temer encontrar com homens sozinha na rua por que ela teria algum tipo de culpa de fazer exatamente aquilo que foi ensinada a fazer, ainda mais se a sociedade não lhe dá qualquer motivo para que não precisa mais agir assim? E este é apenas um dos milhares de exemplos que poderiam ser citados.
Assim como acima está implícito, falo aqui como tendo nascido e sido colocado num grupo historicamente opressor, e é para pessoas como eu que falo. Com todo este aparato ideológico instaurado em nossa sociedade desde tempos remotos é natural que, por mais que tenhamos uma noção diferenciada sobre os direitos, o respeito e a igualdade, nos pegarmos agindo de forma que identifique o histórico opressor. Dizemos ser terminantemente contra o racismo, mas damos risadas de piadas com negros ou achamos que negros tem maior propensão a ser bandido (mesmo que seja admitindo que é por que moram em favelas); são completamente contra machismo, mas julgam que uma mulher só consegue algo que um homem não conseguiu por causa de sua aparência ou por razão de ser uma mulher; se diz respeitador de outras fés ou da descrença porém acha temerário ver crianças sendo apresentadas à estas outras fés ou outras descrenças enquanto se orgulha do batizado de seu filho. Qualquer uma (dentre tantas outras) das posições acima citadas pode, de uma forma ou de outra, ter uma vertente verdadeira na concepção social, e isto só nos apresenta o fato de que isso tudo é a construção social que nos imputaram para que pudéssemos perpetuá-la, propaga-la.
Assim, temos então a desconstrução das premissas opressoras como estágio importante para se compreender minimamente a dor do outro e empatizar por seus direitos sumariamente negados. Nos pegaremos com estas incoerências e hipocrisias com certa frequência e, infelizmente, muitas vezes não nos será percebido e continuaremos com elas acreditando não haver qualquer coisa opressora ali. Não fomos criados com as dores daquela opressão, não fomos ensinados a termos empatia pela dor de grupos sociais, porém podemos nos inconformar com as injustiças provindas delas e trabalharmos aspectos decisivos para o caminho da igualdade. Ouça sempre o que estas pessoas têm a dizer, mesmo que a princípio (e, pessoalmente, não vejo como sendo a maioria dos casos) pareça-lhe um tom agressivo e até mesmo acusatório, pois lembre-se que eles foram subjugados e calados por muito tempo e através das lutas sociais muito recentes em toda a  história da humanidade é que conseguem falar e se expressar, gritar pelas dores próprias e de todos como eles; lembre-se que determinadas leis e incentivos para estes grupos provém não da vontade de se dar regalias ou privilégios para eles mas sim como uma reparação histórica que, mais que um pedido de desculpas tardio, é uma forma de colocar à estas pessoas as oportunidades que, por razão de desde sempre terem lhes sido negadas hoje lhe são extremamente dificultadas; analise a história de cada grupo social que luta por direitos e faça a relação direta com suas lutas e exigência, daí verá que a correlação é direta e pertinente; compreenda que um sistema não pode simplesmente ser mudado ou retocado nem mesmo com a melhor boa vontade do mundo pois ele está completamente enraizado na percepção das pessoas e da sociedade, sendo assim este sistema deve ser derrubado de forma a então poder contemplar a justiça e igualdade à todos.
O processo de desconstrução é longo e, muitas vezes, incômodo, pois revela o quão maléficos podemos ser às pessoas que rodeamos e até mesmo àquelas que amamos e queremos tão bem. Possivelmente nesse processo magoaremos a muitos e perderemos até mesmo a credibilidade por ações incoerentes e incabíveis para alguém que gostaria de ser visto (e se ver) como humanista. Porém, no dia-a-dia, nos é gratificante perceber o quão nós mesmo mudamos e temos uma humanidade justa como nossa maior riqueza e presente para as futuras gerações.
Acredito que, pessoalmente, quem deve ter a certeza irrestrita das próprias ações a serem tomadas e seguidas e de como quererá que estas sejam e de como a pessoa quererá ser vista e se ver será a própria pessoa. Sendo assim, quem deve saber o que fazer para contemplar um humanismo claro (e até mesmo ver se quer ser humanista) é a própria pessoa. Mas pensemos nas implicações de não se ser assim, de se perpetuar as diferenças e se lutar para a manutenção de seus privilégios e da restrição aos outros. Existem meios claros que indicam formas de se salvaguardar através de conceitos que atribuem às pessoas desprovidas de oportunidades humanamente explícitas a nós uma culpabilidade por ações que, na verdade, são expedientes de nossa opressão histórica. Opressores históricos criaram e nós, hoje, aceitamos ideias abstratas e irregulares, tendo a chamada meritocracia e algumas determinadas regras sociais como exemplos, para justificar a falta de oportunidades e de igualdade entre opressor e oprimido e transformar esta segregação em culpabilização da vítima. Infelizmente é comum e tragicamente aceita a culpabilização da vítima independentemente do quão fiel às regras intransigentes impostas ela seja.
Por que nos importar? Qual seria a resposta mais plausível e mais correta para justificar o porquê de se lutar para se ser humanista? A verdade é que as pessoas que fazem parte desses grupos sociais não têm – e, portanto, dificilmente pedirão – a participação de pessoas que não estão em suas lutas. E também por mais que qualquer um exponha todas as suas ideias para servirem de resposta à pergunta do ‘porquê’, somos nós mesmo que temos que buscar isso. Faça você parte de um grupo oprimido ou não, em algum momento e em algum aspecto, seja histórico, social, econômico, intelectual ou uma junção de mais de um destes, você é potencialmente um opressor ou foi educado a acatar passivamente a opressão. Uma mulher branca luta por direitos que lhe condizem, porém rejeita e ignora a luta contra a homofobia; um ateu luta para ter seus direitos de descrença respeitados e para não ter a influência religiosa nos ditames de sua vida, todavia mantém em si premissas machistas e de subjugo feminino; um casal homossexual luta por seu direito de constituir uma família, porém acredita que, para si, não conseguiria pensar em adotar uma criança negra; uma pessoa negra luta ferozmente pela representatividade de seu povo que é tão alijada da mídia, mas não quer ver ateus falando sobre as incoerências religiosas e o quão elas são danosas. Há, ainda, aqueles grupos sociais com variadas discussões dentro de sua própria luta, como homossexuais que desfazem de bissexuais e transexuais, mulheres que ignoram a luta das mulheres negras ou ateus ativistas que consideram covardia o agnosticismo. Toas estas colocações mostram quão é grande a variabilidade do ser humano em suas lutas, mas de forma nenhuma isto deva ser um empecilho para se alcançar o objetivo maior que é a humanização do ser humano.

Construir uma sociedade onde todos sejamos iguais perante à lei e à nós mesmos e diferentes em nossas necessidades e desejos começa com a construção de uma empatia humana e a desconstrução dos preconceitos a nós impostos. Daí sim, alcançado isso, seremos realmente livres.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Humanismo x Ateísmo x Movimentos Igualitários

A batalha dos Guararapes - Victor Meirelles de Lima
Opor movimentos pelos direitos das minorias e pelos direitos de grupos oprimidos ao movimento humanista é um contra-senso. Não são a mesma coisa mas fazem parte do mesmo escopo ideológico segundo o qual todos têm direitos iguais, independente de identidade de gênero, orientação sexual, cor da pele ou etnia, religião ou não crença ou classe social.

Por definição, todos os movimentos que lutam por direitos iguais para as minorias e para os grupos historicamente oprimidos se incluem no humanismo.

Tentar desqualificar as lutas dos oprimidos conclamando-os a lutarem ‘apenas’ pelo humanismo e não pelas suas necessidades específicas e contra as opressões direcionadas que sofrem é contribuir para sua discriminação, diminuindo o peso dessas opressões e banalizando os vários tipos de violência a que esses grupos estão sujeitos simplesmente por não fazerem parte dos grupos dominantes.

A luta dos negros é específica; a luta das mulheres é específica; a luta dos ateus é específica; a luta de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros é específica; a luta dos trabalhadores é específica. E todas essas lutas são, em última instância, em prol do humanismo.

A nossa sociedade ocidental foi estruturada sob o ponto de vista do homem branco e heterossexual; além disso, somos em maioria governados dentro do sistema capitalista e ainda sob a égide do Cristianismo. Sendo assim, qualquer indivíduo ou grupo humano que não seja homem, branco e heterossexual, que não seja cristão e que não detenha o capital e os meios de produção se enquadrará nas características denominadas hoje de minorias ou oprimidos.

O ateísmo é uma circunstância de quem não crê em deus ou deuses. Sendo nossa sociedade majoritariamente cristã, indivíduos ateus se enquadram também como minoria social. Ateus defendendo as diferenças de tratamento social e de direitos entre homens e mulheres não os torna menos ateus, mas certamente demonstra que não são humanistas; assim também ateus defendendo a diferença de tratamento e de direitos entre heteros e LGBTs, e entre brancos e negros.

Cada movimento luta pela sua visibilidade, pelos seus direitos e pela sua representatividade na sociedade em igualdade de condições para com o setor social dominante e contra essa diferença opressora. Ateus, negros, trabalhadores, mulheres, índios, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros se organizam em torno da ideia humanista de que todos os seres humanos são verdadeiramente iguais em direitos.

Alguém pode questionar o porquê de não se incluir nessa lista os cristãos, os latifundiários e empresários, os homens brancos e os heterossexuais…

Por que esses grupos não fazem parte das minorias, nem dos oprimidos; o que não quer dizer que não sejam oprimidos em alguma instância ou que sejam eles sempre opressores, ou que oprimam conscientemente todos os outros. Dizer que um indivíduo ou um grupo é dominante e historicamente opressor quer dizer que desfrutam de privilégios sociais desde que nasceram, independentemente de concordarem ou não com o status quo macho-hetero-branco-cristão-capitalista da nossa sociedade.

Assim, quando brancos se posicionam contra o movimento dos negros contra o racismo, alegando que praticam um ‘racismo contrário’, quando homens se posicionam contra o movimento feminista alegando que praticam a ‘misandria’, quando heterossexais se posicionam contra os movimentos LGBTs alegando que pretendem uma ‘ditadura gay’, quando cristãos se posicionam contra o ateísmo alegando que são ‘imorais e pecadores’ e quando capitalistas se posicionam contra os movimentos dos trabalhadores alegando a ‘meritocracia’ estão, todos esses opositores, na verdade, lutando para manter seus privilégios, a que estão tão acostumados que os vêem como naturais, imutáveis, corretos e mesmo – pasmem! – necessários para o bom andamento da sociedade.

Qualquer indivíduo que se pretenda humanista terá, por definição, a obrigação ética de apoiar as lutas das minorias e dos grupos oprimidos, sem questionar sua legitimidade e sem pretender definir suas lutas ou como elas devem ser praticadas. Qualquer um que oponha as lutas das minorias e dos grupos oprimidos ao humanismo, como se estes fossem excludentes, ou não conhece essas lutas a fundo ou não conhece as características humanistas a fundo.


Para praticar o humanismo não é necessário diluir as lutas específicas de outros grupos mas, ao contrário, fortalecê-las apoiando-as, conhecendo-as e contribuindo para que, de luta em luta, de conquista em conquista, o humanismo possa, um dia, ser uma prática cotidiana, transformando nossa sociedade em uma sociedade verdadeiramente igualitária.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Desopressores: oprimidos para oprimir

Criança morta - Cândido Portinari
A opressão de um grupo de seres humanos para outro é milenar. Provavelmente nos acompanha desde a primeira vez que conseguimos nos fixar numa terra específica e a cercamos para que outros grupos não fizessem o mesmo. Ou mesmo antes. E esta opressão foi e ainda é justificada das mais variadas formas, desde contextos facilmente desconstruíveis até aqueles que estão tão inseridos na nossa história (do mundo, de uma forma geral) que conseguimos efusivamente negar.
Quando lidamos com denúncias a respeito da opressão que pessoas postas nos grupos oprimidos por pessoas postas nos grupos opressores, costumamos não negar que houve a ocorrência, mas muito comumente, como uma verdade irrestrita, culpamos o oprimido, como no caso (dentre tantos outros) da doutoranda Thais Moya, da UFScar de São Carlos, interior de São Paulo, onde a mesma foi violentada e, quando denunciado o ato (tendo ela apoio dos outros estudantes) foi covardemente coagida a aceitar o fato e posta como ela sendo a responsável pelo abuso do professor.[1]
Não sabemos lidar com o fato, em algum momento, de sermos opressores ou mesmo mantermos a opressão. É senso comum que grupos são oprimidos pelos mais variados motivos – os mais comuns são cor, gênero, orientação sexual, natalidade e descrença – mas ninguém em sã consciência se verá na condição de opressor, mesmo que saiba que faz parte do grupo social que assim age. Basicamente, eles veem como démodée, algo que não pode ser feito (admitir sua opressão aos outros) por ser “fora de moda”. Não creio que seja necessária uma grande argumentação para denotar que a ideia de algo ser fora de moda não se encaixa em conceitos igualitários. Mas é este seu mote, sua motivação para se verem inseridos num contexto humanitário que há décadas vem sendo exigido através da tentativa de se implementar culturalmente às pessoas, e leis universais como os Direitos Humanos[2] que procuram trazer luz à ignorância que por milênios nos ronda.
Assim, encontramos o tão falado preconceito velado, onde ele existe, mantêm-se, prolifera, mas adoramos dizer que não somos isto, que não podemos ser. A carga conceitual discriminatória que é passada geração após geração nos torna tão fortemente mantenedores de preconceitos que para compreender efetivamente os grupos oprimidos e a situação de seus indivíduos, assimilar factualmente o que é ser todos os dias exposto, escarneado, zombado, ridicularizado, agredido, desestimulado e alijado de seus direitos fundamentais – e isto quando sua integridade mental e física não são severamente lesionadas, o que ocorre com frequência assustadora – é preciso fazer parte dos oprimidos, ser destes grupos.
Mas e quando o opressor é a vítima de sua própria opressão? E quando os ditames sociais que o fazem levantar-se contra grupos que ele considera inferiores são os implicadores dele mesmo ser severamente oprimidos, onde ele precisa manter um padrão de ideias e comportamentos pois, diferente disto, será este a sofrer com a exclusão social? Sim, muitos dos opressores se veem nesta situação, e a coação para se ser opressor, fazer parte dum grupo historicamente dominante é severamente internalizada, chegando ao ponto do indivíduo que não mais queira fazer parte disto tenha que lutar arduamente contra seus consensos soberbos, procurando discernir sobre o quanto oprimir lhe é opressor.
Chegar ao ponto de compreender fortemente esta situação não é fácil, ainda mais quando raríssimas vezes ocorrem circunstâncias que revelem a situação em que este opressor está inserido. Tendo em vista a situação de alguém não aceitar se colocar (e ser colocado) como dominante pela razão acima vista neste texto e a obrigação desde a infância de que possui padrões a serem seguidos e os mesmos devem ser seguidos inquestionavelmente (ou mesmo porcamente questionados) nos traz a vermos que estamos no círculo vicioso da opressão, e sair dele é uma tarefa desejada, mas de realização dificílima, sendo o indivíduo oprimido tanto pelo seu condicionamento em ser inferior ou superior.
Quando um pai numa separação possui sua guarda sumariamente negada (e pondo-se o fato de que este nada tenha a lhe desabonar) não há outra explicação que não o fato deste ser homem, e à mulher fica o papel social – e não mais que isso – de que é obrigação dela a cria dos filhos e esta possui uma “naturalidade” irredutível para a ação da cria. O podemos até mesmo conjecturar sobre a evolução legal que se fez ver na PLC 117/2013[3], da guarda compartilhada mesmo sem acordo entre os cônjuges. Quando a cor de alguém é um fator preponderante para que a vaga de emprego seja a razão de sua entrada numa empresa, os que a obtiveram podem questionar-se se sua capacidade é relevante ao processo ou se seu empregador realmente compartilha da ideia de que a natureza da melanina influencia no trabalho, e isto é importante pois: o que lhe garante que o trabalho lhe renderá exatamente o que lhe foi propiciado e o que lhe garante o mesmo não ocorreria numa inversão melanínica? Podemos, assim como feito anteriormente, conjecturar por tanto sobre a eficácia das cotas como distribuição equitativa das vagas, mas o contexto é completamente equivocado se pensarmos que cotas são injustas[4] e que sua única função é contemplar uma “raça“ em detrimento de outra[5]. Uma mãe e um pai que veem um filho homossexual se põem no amor incondicional à este e em momento algum lhe questionam sua condição natural, mas se veem presos às mazelas duma sociedade que, eles sabem, vai dificultar ao máximo a vida do filho e o atentam para o que este deve ou não fazer em público. Um religioso comove-se com o sofrimento do ateu que, expulso de casa por sua descrença, tenta promover um consenso onde a família reúna-se para que haja o respeito mútuo, pois o seu deus não aceita aquela que aquela “pobre alma perdida” fique desamparada sem seus ensinamentos. Os quatro casos apresentados mostram o quanto é difícil para alguém que procura distanciar-se ou mesmo desmembrar-se das amarras sociais subjugadoras, mas que o dia a dia não lhes proporciona uma vida sem o sofrimento da opressão, mesmo fazendo parte dos grupos historicamente opressores.
Todas estas situações que envolvem as dificuldades dos ‘subalternos sociais’ e os detratores não-detratores nos mostram que o sofrimento é inegavelmente amplo, e insanamente proporciona a degeneração da vida social como, paradoxalmente, uma regra para a vivência social. A sociedade é doente por causa da separação e do vislumbre degenerativamente abrangente, mas o sente consolidado em suas raízes a ponto de negar veementemente o contrário, o confronto destas ideias. E assim continuamos presos num ad infinitum sem muitas vezes nos darmos conta.
Desoprimir acaba por ser o início, para os membros dos grupos favorecidos e que não mais queiram manter este status quo, da humanização do ser humano, como forma de ter a si o pleno de se estar num mundo em que as pessoas possam ter sua igualdade definida e suas diferenças respeitadas. Ser um desopressor, que luta pelos direitos de todos, bem como pelo direito de não oprimir, de não ter ideias, conceitos e atitudes que de uma forma ou de outra desagregue e rebaixe qualquer outra pessoa por qualquer coisa que seja. Ser um desopressor nos instiga a lutar pela causa humana nos apoios das causas e das lutas daqueles que há milênios sofrem nas mãos de grupos que em toda a história puseram-se a frente de outros, mesmo fazendo parte dos favorecidos. É a empatia pela dor e o sofrimento do outro, é a conclusão de que o outro é, nada mais nada menos que um ser humano e que possui sua natureza complexa extremamente ligada a ele mesmo.
No entanto, não é possível abarcar a dor tórrida que deflagra a vida de quem é marginalizado. Cada nuance, cada gesto, cada medo enfrentado por estes em cada minuto de sua existência jamais será claramente compreendido por aqueles que não passam pela mesma situação. E este é um dos motivos que torna um desopressor um agente empático, de referências humanistas generalistas, mas sem o cerne da dor e das dificuldades que atropelam miseravelmente nossa espécie. A luta contra o machismo, contra o racismo, contra a homofobia, contra o preconceito aos descrentes, contra a xenofobia e afins não é de um desopressor em suas táticas e estratégias, suas definições e suas dores, tão claras e reais, mas deve ser apoiada conforme as necessidades que aqueles demonstram ter, sempre com o ser humano tendo em primeiro lugar. E ter o ser humano em primeiro lugar significa entender que sua luta para ter seus direitos respeitados não deve ser restrita ao grupo em si, mas à todos. Não é papel do opressor definir como será a luta do oprimido. O papel do opressor é deixar de ser opressor, para que não mais exista o oprimido.
O que podemos alicerçar não são os papeis sociais que nos são alcunhados, mas o emergir de uma sociedade em que as pessoas são exatamente o que esta palavra significa, pessoas, com o direito natural de sermos vivos e vivermos com nossas necessidades contempladas, não deixando que ninguém queira impor conceito algum. Não há literatura científica ou histórica séria que dê respaldo à dominação de um ser humano sobre outro. Por que haveria do senso comum fazer este papel? Não há. Não é papel do senso comum permear a sociedade dogmatizando-a, conceituando-a dentro de sua total falta de completude a tudo que envolve a humanidade. O senso comum, no fim, não possui papel verdadeiramente sério algum. Seu papel é manter o círculo vicioso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A culpa de Eva: uma herança cristã

A criação de Eva - Michelangelo
As mulheres cristãs, em princípio, aceitam a culpa de Eva, confirmam que seu pecado necessita de expiação, acreditam que o parto é um castigo, tratam a si mesmas como reprodutoras, encaram o sexo como pecado, abrem mão de sua independência sexual, dos direitos que têm sobre o próprio corpo e se submetem às regras da Bíblia e da Igreja para dirigirem suas vidas.
A doutrinação cristã junto às mulheres parte do princípio de culpabilização, necessidade de expiação e, em consequência, submissão ao poderio da religião e ao modelo ideal de mulher cristã[1]:
“Um recurso utilizado pelo Catolicismo para envolver a sociedade em seus dogmas foi a criação de símbolos que pudessem ser identificados às práticas femininas. Para difundir a prática da maternidade e, ao mesmo tempo, a repressão da sexualidade, todas as santas são virgens assexuadas, destacadas pela sua bondade, abnegação, obediência, resignação e filantropia. O culto à Virgem Maria, por exemplo, assumiu, no catolicismo, uma posição elementar.”[2]
Uma das formas mais fáceis de dominação é convencer o dominado de que ele não só merece ser subjugado como também de que esta dominação é um bem.
Como uma dominação pode ser vista como um bem para quem está sendo dominado? Convencendo-o de que ele é incapaz de tomar decisões acertadas, de que precisa de orientação, de que seu discernimento, seu pensamento racional e crítico são ineficientes para julgar o que é melhor para ele.
E o melhor para ele é, sem dúvida, ser perdoado e viver eternamente, uma vez que seu erro é ancestral, não depende dele, que já nasceu pecador e condenado à morte.
Por meio da assimilação de culpa é que o dominado poderá redimir-se, ser orientado e salvo das consequências de seu pecado maior: a desobediência.
Eva foi a grande causadora da entrada do pecado no mundo; através de sua desobediência todos os descendentes herdam esta culpa, devendo expiá-la negando em si mesmos os desejos pessoais e o pensamento livre, pondo-se sob as orientações e cuidados de Deus Pai e de seu Filho, Jesus Cristo, representados na Terra pela Igreja.
O homem é colocado como vítima da desobediência da mulher. Seu pecado foi ter se deixado convencer por ela.
A mulher é não só a introdutora do pecado, mas é, ainda, uma ameaça aos homens, visto que pode levá-los a pecar, sendo uma constante fonte de tentações e maior culpada pelos abusos sexuais que sofre:
“Quando se apresentou ao comissário do Santo Ofício de Pernambuco, em 1760, para confessar o abuso de seis mulheres, o padre José Pereira Afonso se explicou dizendo que os confessores não solicitavam mulheres na confissão e só deviam “cuidar e fugir para elas os não perseguir e solicitar a eles”. O religioso ainda afirmou que as coisas não eram assim na Europa, “por viverem as mulheres com mais recato e não haver tanta solidão, nem escravos que no Brasil são a perdição das casas”.[3]
Quando Eva pecou condenou todos os seres humanos a se submeterem ao Cristianismo em busca da única salvação possível: aceitá-lo.
Jesus Cristo diz claramente: Aquele que não crer em mim não conhecerá a vida eterna, mas já está condenado.
Por que os seres humanos estão condenados? Por terem nascido pecadores – culpa de Eva. A remissão dos pecados dá-se pela aceitação da culpa de Eva e acatá-la como sua própria.
Acreditar no Cristianismo implica em aceitar a Bíblia em sua totalidade como sendo a Palavra do deus cristão, inclusos aí a mitologia da Criação, do Nascimento Virginal de Jesus e de que Ele é a única salvação.
O controle do Cristianismo sobre a sexualidade feminina é uma das consequências do Mito do Nascimento Virginal de Jesus.
Quando a Bíblia coloca o sexo como pecado e a gravidez como um castigo a mulher passa, automaticamente, a ter a obrigação de manter-se casta e a restringir seus desejos sexuais ao casamento e à maternidade, já que precisa expiar por meio das dores do parto toda a sua terrível culpa.
Para as mulheres, eternas filhas de Eva, resta buscarem o modelo cristão de comportamento feminino: Maria, a Imaculada Mãe de Jesus, que jamais teve um orgasmo.
Ainda que o Evangelismo não pratique o culto à Maria, ao reconhecer o Mito do Nascimento Virginal de Jesus, contribui fortemente para a submissão feminina, uma vez que o ideal feminino defendido se enquadra na virgindade, no sexo apenas para procriação e na permissão da prática sexual unicamente com o parceiro reconhecido como legítimo através do casamento sagrado pela Igreja.
Todas as grandes denominações cristãs atuam de acordo com esses três mitos iniciais; são dogmas e, portanto, inquestionáveis.
Em uma sociedade de maioria cristã, ser ateu significa rejeição à ideia de divindades, especialmente o deus bíblico, ou seja, deveria significar também rejeitar os dogmas religiosos repletos de preconceitos.
Ateus não têm ou não deveriam alegar ter motivos para compactuar com a discriminação da mulher pela sua independência sexual e para legitimar o sexo e o comportamento sexual como indigno, como medida de valor humano e como forma de dominação de um gênero sobre outro.
A única justificativa para perpetuar os preconceitos e a misoginia bíblica é a crença religiosa ou o condicionamento a ela, que, sendo ainda fortemente decisivo no indivíduo, o impede de perceber que está apenas sendo fiel aos ditames de uma religião de um deus no qual não crê.
Mulheres e homens que se reconhecem como ateus dão significativo passo em direção à igualdade de direitos, ao respeito a esses direitos e à uma sociedade em que homens e mulheres, em todas as suas matizes de identidade sexual, possam conviver como iguais.

sábado, 23 de agosto de 2014

O que é necessário para se ser ateu?

Os livros amarelos - Vincent van Gogh
Ateus não precisam ser cientistas, não precisam ser de esquerda, não precisam ser feministas, defensores dos direitos dos animais, doadores de órgãos, sangue ou ainda ser humanistas.
Não, realmente, ateus não precisam ser nada disso.
A palavra "precisar" indicaria pré-requisitos para se ser ateu e determinaria o ateísmo como algo mais do que a simples não crença em um ou mais deuses. Que é o que o ateísmo é, todos estamos carecas de saber, não é mesmo?
Então, por que é necessário tantas vezes que repitamos o conceito de ateísmo, mesmo para ateus e não só para religiosos?
Por que tantos ateus e mais ainda religiosos teimam em expandir o conceito da não crença em um ou mais deuses? E determinar ou apontar o que seria um "ateu de verdade"?
O que confunde muita gente, na minha opinião, é que muitos dos ateus são, por opção, cientistas, de esquerda, feministas, defensores dos direitos dos animais e humanistas igualitários (não nos esqueçamos de que muitos religiosos também são tudo isso, mas vamos lá, sigamos sobre os ateus).
A pergunta do primeiro parágrafo já foi respondida, ok. Deixem-me formular algumas outras que talvez nos ajudem a entender o porquê do conceito de ateísmo ser confundido ou expandido assim:
Por que alguém que não crê que um livro é a palavra de uma divindade seguiria o que este livro diz, mesmo que seja algo antiético, imoral e até desumano? Muito mais coerente seria não segui-lo, não é?
Por que esse descrente desse livro e de toda a mitologia ao redor dele defenderia o modo de pensar expresso ali, ainda que seja um modo de pensar da Idade do Bronze, de um tempo histórico anterior aos grandes avanços das ciências, moldado por mentes desaparelhadas para compreender o corpo e o cérebro humanos e seus funcionamentos?
Muito mais produtivo seria questionar esse modo de pensar, diante de uma fonte dessas, concordam?
Por que uma pessoa que não acredita que existe um ser superpoderoso e invisível em algum lugar a observando e julgando todas as suas ações e pensamentos do ponto de vista de uma sociedade ainda em formação, viveria e pensaria de acordo com as regras risíveis, os conceitos pseudocientíficos e os preconceitos terríveis desse mesmo ser invisível, em detrimento do uso de seu poder de raciocínio?
Não seria, digam-me vocês, muito mais racional permanecer cético também sobre a validade dessas regras e preconceitos? E não só sobre a existência de quem os teria formulado?
Chega de perguntas, quero tentar promover aqui algumas reflexões sobre todos os preconceitos que perpetuamos em nós (ateus) e ao nosso redor, os quais muitas vezes defendemos com uma certeza e um afã dignos de um fanático. Que tal essa: existem ateus que, uma vez libertos da crença no Deus judaico-cristão, desenvolvem um pensamento contrário aos ditames desse deus, já que vivem em uma sociedade cristã e percebem, através do uso de sua razão, que não faz sentido algum seguir as ideias inverídicas de um personagem como aquele.
E mais uma: a nossa sociedade, por ser de maioria cristã, está indissoluvelmente atrelada à ideologia imoral, racista, machista, homofóbica e autoritária da Bíblia em todos os nossos vários segmentos sociais, como famílias, escolas, ambientes de trabalho, produção cultural, decisões políticas e em tudo mais. Muitos ateus ainda não se libertaram desta influência condicionante e não percebem que trazem em si uma das piores facetas da religião cristã.
Ou essa aqui: os tabus sexuais, a homofobia, os preconceitos de etnia, as desigualdades de direitos entre os gêneros, a desconfiança com o saber científico, a desvalorização dos portadores de necessidades especiais e a visão de que os animais existem para servir à espécie humana são ideias defendidas pelo livro sagrado do Cristianismo e fazem parte da bagagem cultural de todo cidadão brasileiro, já que estamos inseridos nessa sociedade contaminada por essas ideias bíblicas.
Muitos de nós percebem isso e nos tornamos ou tentamos nos tornar pessoas melhores.; o que passa pela rejeição do pensamento religioso.
Diante dessas perguntas e dessas reflexões, não há surpresa alguma, para mim, que nós ateus sejamos confundidos com humanistas, dentre outras coisas.
Não é que seja preciso, indispensável, exigido ao ateu ser cientista, de esquerda, feminista, defensor dos direitos dos animais ou humanista, ou outra coisa qualquer. Não, não, não.
É que faz todo o sentido do mundo, na minha sincera e esperançosa opinião, ser ateu e ao mesmo tempo despertar para os direitos humanos de igualdade, para solidariedade e empatia. Afinal, se não cremos no deus judaico-cristão (e em nenhum outro), por que faríamos como "Deus" e pensaríamos o mundo, a política, a Ciência, o sexo, o aborto, os direitos humanos, as mulheres e os homens, os heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros, os negros, os índios, as pessoas em geral e os animais, tudo, tudo, tudo sob uma perspectiva sectária, segregacionista, autoritária e imoral, e não sob a perspectiva humanista?
Vocês são ateus e não creem em deuses.
Não creem no Deus Pai, no Deus Filho, ou no Espírito Santo. Vocês não precisam ser humanistas.
Mas eu torço para que vocês se rebelem e escolham ser.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O feminismo nos libertará

Cupid and Psuché - Jacques-Louis David
Existem discussões intermináveis (mas nem por isso de menos importância) quando se tentam relativizar o machismo, mal endêmico em toda a sociedade humana. Essa relativização ocorre por um erro de conscientização histórica, beirando às raias do vitimismo por parte dos que reclamam e dizem que o machismo afeta tanto homens como mulheres, em igual proporção.
Não, isto não é verdade, isto não ocorre. As mulheres sempre serão muito mais vítimas desta regulamentação misógina a qual vivemos e, infelizmente, aceitamos.  A sociedade humana – com raríssimas exceções – possui como norma a superlativação do gênero masculino no que tange todos e cada aspecto do cotidiano. E isso acarreta em consequentemente a pústula de regras que se seguem para sanar o ego masculino, que em essência é frágil: somo heteronormativos, conceituamos erroneamente raças (termo este que não se faz mais vigente[1]) para podermos deixar de lado quem possamos julgar diferentes, e este julgamento remete ao medo de se enfrentar e disputar território (por território, na humanidade de hoje, podemos conceber poder, influência, mulheres).
Vemos a separação visceral pelos conceitos sexistas, onde até mesmo crianças são ensinadas desde cedo que existem cores, modos, brincadeiras e companhias específicas para cada sexo, impondo pedantemente à estas que separem-se e não se descubram, não se compreendam e não se sintam parte de um todo mais importante: a sociedade humana. Colocamos meninas em redomas herméticas de sabedoria esdrúxula para que esta sirva de parideira, intuindo nelas a necessidade de serem “moças direitas”, “para se casarem”, e que estas compreendam a “natureza do homem” e aceitem comportamentos egoístas, dizendo “Ah, mas é homem, e homem é assim mesmo”. O caráter tem a ver com a criação do indivíduo, e não com seu gênero.
Mesmo em situações em que a desigualdade deveria ser banida acabamos, pelo contrário, vendo-a enraizada. Os homens acabam por sofrer do próprio veneno quando de disputas ilegítimas. A norma – mesmo não sendo mais lei, hoje – é de que, por exemplo, um pai terá mais dificuldade de regular sua visitação aos filhos perante a justiça, esta dando mais ênfase ao fato de que a mãe teria um “direito maternal” e preferência implicitada. Ou vários casos parecidos, onde aos homens são imputadas nuances e comportamentos que os justificaria “machos”, como se pare ser homem devesse-se agir da mesma maneira que lhes foi imposto e que é o cerne deste texto.
Cada milímetro quadrado do físico e das ideias que nos cercam são de cunho masculino. Mesmo as concepções femininas passam por normas masculinas de comportamento, onde suas definições ajudam a alicerçar esta estrutura machista em que vivemos. Sendo assim, pode se imaginar que é mais do que natural que muitas mulheres tentem quebrar estas normas, com situações que podem chocar a já muito frágil estrutura masculinizada (esta fragilidade se dá por si mesma, por não ser uma estrutura que contemple ambos os sexos, ela é frágil por si).
Este choque faz bem a nós, pois podemos averiguar o quão ignóbeis criamos nossa sociedade para marginalizarmos o conceito do feminino, o quão elas devem batalhar mais forte e mais intensamente por direitos que lhes são inatos. Isto assusta a sociedade, chegando ao cúmulo de alcunhas grotescas e sórdidas, como ‘feminazi’ (uma pessoa que usa esta palavra além de ser ignorante no que tange as liberdades individuais mostra total falta de conhecimento da história humana, e se o faz pensadamente aje por mal-caratismo).
Todos sofremos com estes aspectos, com esta regulamentação misógina, misantropa, segregacionista e machista. Em maior ou menos escala, todos nós sofremos ou sofreremos com estes conceitos imputados a nós. E o pior é que internalizamos isto como forma de nos adequarmos a esta sociedade profundamente doente, seja por nos ser intrínseco à própria altura de nossas vidas, seja por realmente temermos olhares tortos. É isto que ela nos faz, nos torna o que não queremos ser até que nos acostumemos a queiramos isto. E até quando?